Eucaristia: mistério acreditado, celebrado, e vivenciado

Hoje, solenidade de ‘Corpus Christi’ – Corpo do Senhor, manifestamos nossa fé pública na Eucaristia. O Evangelho de hoje no recordou que a Eucaristia foi instituída num contexto de refeição, por isso a chamamos de “ceia do Senhor, ceia Pascal”. A eucaristia é “ação de graças”, “memória” “sacrífico de amor de Jesus na cruz”. Em cada eucaristia atualiza-se o mistério Pascal de Jesus, ou seja, estamos diante do grande mistério do amor de Deus por nós. Amor que transborda, sai de si e nos alcança, nos encontra. Mergulhando neste mistério da eucaristia quando entendemos que Deus nos dá tudo e nos amou até o extremo da eucaristia. Na afirmação de Santo Tomás, a eucaristia contém a totalidade do mistério da nossa salvação (totum mysterium nostrae salutis). A Eucaristia é a última e perene Páscoa de Cristo.

Diante deste grande mistério da Eucaristia, destaco três pontos para nossa reflexão: A Eucaristia, mistério professado, celebrado e vivenciado.

  • A Eucaristia, mistério professado

A eucaristia não é um pão abençoado que representa Jesus, e sim é o próprio Jesus vivo. Nas aparências do Pão e do Vinho, está o Senhor ressuscitado. Acreditamos em sua presença pelo olhar da fé. Ou cremos ou não cremos. Em Jo 6, 51-58, Jesus se apresenta “como pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. Minha carne é verdadeira comida e meu sangue verdadeira bebida”. Ele quis se fazer alimento para nós. “Tomai e comei”, “Tomai e bebei”. Ele é alimento dos peregrinos, dos que O buscam de coração aberto. A eucaristia não é um prémio para os perfeitos, mas é alimento para nós frágeis e pecadores. Ninguém de nós é digno de receber a eucaristia. Ela é um presente, um dom, uma graça que nos alimenta na vida cotidiana. Jesus é o pão vivo descido do céu que sacia nossa fome de Deus, de sentido, de vida. Seu sangue sacia nossa sede. Quem comer deste pão e beber deste cálice não terá mais fome e nem sede.

Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a eles, e disse: «Tomem, isto é o meu corpo». Em seguida, tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles beberam.  E Jesus lhes disse: «Isto é o meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus.

  • A Eucaristia, mistério celebrado

Ao  celebrar a Páscoa com seus discípulos, Jesus fazia memória da longa história de fé e de esperança do seu povo. Todavia, algo profundamente novo aconteceu naquela Ceia de despedida. O que Jesus desejava ou pedia que os seus seguidores fizessem quando disse: Fazei isto em memória de mim (Lc 22,19; 1Cor 11,24)?

O Apóstolo Paulo afirma: «O cálice da bênção que nós abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo?» (1Cor10,16). Estas palavras de Jesus expressam o “efeito místico ou podemos dizer o efeito espiritual da Eucaristia: diz respeito à união com Cristo, que no pão e no vinho se oferece para a salvação de todos. Jesus está presente no sacramento da Eucaristia para ser o nosso alimento, para ser assimilado e para se tornar em nós aquela força renovadora que restaura a energia e restabelece o desejo de se pôr a caminho, depois de cada pausa ou queda. Mas isto exige o nosso consentimento, a nossa vontade de nos deixarmos transformar, o nosso modo de pensar e de agir; caso contrário, as celebrações eucarísticas em que participamos podem se reduzir a ritos vazios e formais” (oração do Angelus no dia de Corpus Christi em 2020). Portanto, o primeiro efeito da eucaristia é espiritual.

Nem todos os católicos de nosso país e de outros continentes tem acesso a eucaristia dominical. Estive 3 anos e meio em Moçambique na África e encontrei comunidades que a seis anos não tinham missa na comunidade. Aqui mesmo no Brasil, nas comunidades da Amazônia, 90% das comunidades não tem acesso a eucaristia dominical. Aqui na cidade de Rondonópolis somos privilegiados com eucaristia diária.

  • A Eucaristia, mistério vivenciado.

A Instituição da Eucaristia se dá no contexto do Lava-pés: Jo 13,1-17: “Antes da festa da Páscoa, Jesus sabia que tinha chegado a sua hora. A hora de passar deste mundo para o Pai. Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim…Então Jesus se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Colocou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando com a toalha que tinha na cintura…Depois de lavar os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto, sentou-se de novo e perguntou: «Vocês compreenderam o que acabei de fazer? Vocês dizem que eu sou o Mestre e o Senhor. E vocês têm razão; eu sou mesmo. Pois bem: eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros. Eu lhes dei um exemplo: vocês devem fazer a mesma coisa que eu fiz. Eu garanto a vocês: o servo não é maior do que o seu senhor, nem o mensageiro é maior do que aquele que o enviou. Se vocês compreenderam isso, serão felizes se o puserem em prática”.

No item anterior, eucaristia mistério celebrado, recordamos o sentido espiritual da eucaristia. Aqui neste terceiro ponto que tratamos a Eucaristia mistério vivenciado, destaco o segundo efeito da eucaristia que é o aspecto comunitário, expresso por São Paulo com estas palavras: «E como há um único pão, nós, embora sendo muitos, somos um só corpo» (1Cor10, 17). É a comunhão recíproca daqueles que participam na Eucaristia, a ponto de se tornarem um só corpo, pois um só é o pão que se parte e se distribui. Nós somos comunidade, alimentados pelo corpo e pelo sangue de Cristo.

A comunhão com o corpo de Cristo é sinal eficaz de unidade, comunhão e partilha. Não se pode participar na Eucaristia sem se comprometer numa fraternidade recíproca. Temos a tentação se separar nossa fé na eucaristia com a vida concreta. Lembremos que o mesmo que disse “Tomai e comei, isto é meu corpo”, também disse em Mt25, “Tive e fome e me deste de comer”, “estava preso e fostes me visitar”.

 Mas o Senhor sabe bem que só a nossa força humana não é suficiente. Pelo contrário, ele sabe que entre os seus discípulos haverá sempre a tentação da rivalidade, da inveja, do preconceito, da divisão. Todos nós conhecemos estas coisas. Também por isso nos deixou o Sacramento da sua Presença real, concreta e permanente, para que, permanecendo unidos a Ele, possamos sempre receber o dom do amor fraterno. «Permanecei no meu amor» (Jo 15, 9), disse Jesus; e isto é possível graças à Eucaristia. Somos chamados a permanecer na amizade, no amor. É importante cultivarmos tempos prolongados de adoração, escuta e silêncio para estarmos vínculos a Jesus Cristo.

Este duplo fruto da Eucaristia – o primeiro, a união com Cristo, e o segundo, a comunhão entre aqueles que se alimentam d’Ele – gera e renova continuamente a comunidade cristã. É a Igreja que faz a Eucaristia, mas é mais fundamental que a Eucaristia faça a Igreja. Este é o mistério da comunhão, da Eucaristia: receber Jesus para nos transformar a partir de dentro e receber Jesus para sermos unidade e não divisão.

O que significa viver eucaristicamente?

Viver eucaristicamente significa doar a vida, servir, amar até o fim gratuitamente, sem reservas. Comungamos a eucaristia para ter o mesmo estilo de vida de Jesus que passou por este mundo fazendo o bem. A eucaristia visa transformar os humanos que acolhem Jesus e se deixam conduzir por Ele: o pão eucarístico abre à vida, à humanidade e sua história, ao mundo e a todas as suas expressões, mantendo permanentemente viva a fé e a comunhão eclesial. Jesus, em cada Eucaristia nos mostra que o maior dom é servir. Jesus se torna frágil como o pão que se parte e se esmigalha. Mas é ali que está a sua força, na fragilidade. Na Eucaristia a fragilidade é força: força do amor que se faz pequeno para ser acolhido e não temido; força do amor que se parte e se divide para nutrir e dar vida; força do amor que se fragmenta para nos reunir na unidade. Amém

Dom Maurício da Silva Jardim

Bispo da Diocese de Rondonópolis Guiratinga