2º Domingo da Quaresma

Entre o Tabor e o Calvário

Na Liturgia da Igreja a cena da Transfiguração do Senhor aparece apenas duas vezes durante o ano, uma na própria festa da Transfiguração, outra no 2º Domingo da Quaresma. Sabe-se que na Festa da Transfiguração a ênfase que a Igreja dá é a glória de Jesus como o Messias, percebe-se isso até mesmo pelos paramentos brancos. Mas qual o motivo deste evangelho em um tempo penitencial? Primeiro é necessário localizar o texto no Evangelho de Lucas. A passagem da Transfiguração do Senhor acontece logo após um discurso forte e escandaloso, no versículo 23 Jesus adverte que se alguém quiser segui-lo deve renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz. Por isso muitos escritores veem que a Transfiguração é uma cena confortante, que invade os participantes com ânimo, coragem e ardor, após tão duro chamado.

Se nesta cena Jesus sobe em um monte (o Tabor) para a Glória, um pouco mais tarde Ele subirá em um outro monte (o Calvário) para a Cruz. Assim de forma pedagógica percebemos esta contraposição entre glória e cruz aqui neste 2º Domingo. Após o discurso da Cruz e a manifestação da glória os discípulos decidem ficar na glória, porque “é bom estarmos aqui”. Mas a vida cristã precisa descer dos momentos de glória e ter os pés no chão de nossa realidade humana.

A história de cada pessoa é repleta de momentos de acertos e erros, vitórias e derrotas, risos e lágrimas. Os momentos bons da vida são atraentes e nos envolvem de tal forma que se pudéssemos escolheríamos somente a alegria. É uma tentação muito grande viver de glória, até mesmo uma alienação uma religião que prega somente vitória. Não podemos viver só de festa, a vida não é feita ó de picanha, mas é feita de arroz e feijão, além de muitas vezes alguns “jilós e jurubebas”. O cristão não é um masoquista que busca a dor e sofrimento, ou acredita que Deus quer que soframos, mas um cristão que não aceita que tais elementos fazem parte da vida é imaturo.

O sofrimento é parte integrante de nossa existência e a cruz de Cristo é o ápice da solidariedade divina. Jesus sofreu como nós sofremos. Diante de tantos males que nos aflige, doenças, pobreza, violência, conflitos, e de forma mais recente a guerra no leste europeu, devemos primeiro pensar que esta não é a vontade de Deus. Mas que em Cristo todo sofrimento tem um valor salvífico, redentor. Ou seja, diante de um sofrimento passível de mudança podemos lutar para que este se extinga, mas diante de um sofrimento imutável o cristão é chamado a unir-se a Cristo na Cruz, já que na Cruz Cristo se uniu em consolo a todos que sofrem.

O Evangelho deste Domingo é uma esperança e confirmação de que estamos no caminho certo, que devemos prosseguir, mesmo com sofrimentos e perseguições, fora ou dentro da Igreja. Os perseguidores e os que nos aflige entregamos à Divina Misericórdia, os sofrimentos abraçamos com alegria, pois vimos a glória do Senhor e sabemos que esta nos espera na Ressurreição. O que não podemos é ficarmos entorpecidos pela glória a ponto de não pormos os pés no chão. Este é o ânimo que recebemos neste período penitencial: Glória e Cruz farão parte de nossas vidas até o último dia, o que devemos ter firmes em nossos corações é que tanto em um quanto em outro é o Senhor que guia a nossa história.

 

SEMINÁRISTA ANDRITONY ADRIANO ANCHIETA